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A Enfermagem Frente ao Paciente com Dor

A Enfermagem Frente ao Paciente com Dor

Para que a dor seja tratada adequadamente, é necessário que esta seja primeiramente identificada.

Vários relatos na literatura mostram que a dor é subidentificada e subtratada e indicam que de 45% a 75% dos pacientes hospitalizados têm dor de moderada a intensa. Consideram que essa situação possa decorrer de profissionais despreparados no conhecimento da fisiopatologia e tratamento da dor e também devido à ausência de políticas institucionais que estabeleçam padrões e critérios a dequados a sua avaliação e controle.


A Sociedade Americana de Dor e a Agência Americana de Pesquisa e Qualidade em Saúde Pública, em 1992, criaram a expressão “dor o quinto sinal vital” numa tentativa de elevar a consciência dos profissionais de saúde para a avaliação da dor, considerando que se esta for avaliada com o mesmo zelo e responsabilidade que os quatro sinais vitais têm melhor chance de ser tratada corretamente.

Em verdade, as estratégias visam sensibilizar a equipe de saúde para o fato de que o controle da dor é nossa responsabilidade e um direito do doente.
A estratégia utilizada pela Joint Commission divulgou a prática da avaliação sistematizada da dor em todos os pacientes e transformou o controle da dor num indicador de qualidade da assistência prestada.


No Brasil, o Ministério da Saúde criou, no ano de 2002, um programa nacional de assistência ao doente com dor e determinou a necessidade de profissionais de enfermagem na equipe multiprofissional dos ambulatórios de dor. Percebemos que o gerenciamento da dor evoluiu para um indicador de qualidade da assistência prestada. Para alcançar esta nova proposta, é essencial que a equipe de enfermagem estabeleça seu papel, abandonando a atitude de “um convívio cotidiano e passivo com a dor do outro” e desenvolva ações que permitam tornar a dor visível nas instituições, possibilitando seu alívio adequado.


Como forma de alcançar essa proposta, a equipe de enfermagem pode avaliar a presença de dor, administrar analgésicos prescritos, aplicar técnicas não farmacológicas,
verificar o alívio obtido e a ocorrência de efeitos colaterais. Ainda como forma de cuidado,
realiza ações educativas com pacientes e familiares preparando-os de modo apropriado para o autocuidado.

As avaliações devem ser sequenciais, determinadas pela instabilidade do quadro álgico, duração dos analgésicos prescritos e a realização de procedimentos dolorosos e invasivos, como punções, fisioterapia, curativos etc. Esses instrumentos podem ser de autorrelato, de observação do comportamento e de medidas das respostas biológicas à dor. Devem ser ajustados à idade do paciente e à sua capacidade de compreensão e verbalização.

Os instrumentos ajudam o doente a comunicar sua dor e orientar o tratamento, facilitam a comunicação entre a equipe, contribuem para aproximar o profissional do paciente, além de não permitir que o julgamento do profissional sobre dor dependa apenas de sua experiência e habilidade.
Os doentes conscientes e comunicativos podem mensurar a intensidade da sua dor por meio da escala numérica de 0 a 10. Nesta escala, deve ser perguntado ao paciente quanto é a intensidade de sua dor, explicando que 0 significa sem dor e 10 significa a pior dor possível.
Para os doentes que não conseguem compreender a escala numérica, podem ser utilizada escalas de representação gráfica não numérica (de faces proposta por Wong–Backer, entre outros), a escala de descritores verbais ou a escala visual analógica. Nessa escala, o doente indica com um traço na linha de 10 cm onde se encontra a sua dor; o profissional deve medir esta distância e considerar em centímetros o tamanho da dor do doente.
Para os que se encontram em coma, não responsivos, em sedação profunda ou com alterações cognitivas é importante considerar os equivalentes somáticos e fisiológicos da dor. Para isso, você observará a expressão facial de sofrimento, resmungos, choro, agitação, movimentos de membros superiores,
postura de proteção, ou seja, resistência à movimentação durante cuidados; esses sinais podem ser claros indicadores de dor. Observe também os sinais fisiológicos como taquicardia, hipertensão, taquipneia, desadaptação ao ventilador. Todos podem indicar a necessidade de administração ou aumento da dose de analgésicos.

Os protocolos de avaliação devem conter também informações sobre a localização, qualidades, isto é, com que a dor se parece, por exemplo, pontada, fisgada, queimação, cólica; sobre as possíveis repercussões da dor sobre a função dos sistemas respiratório, cardiocirculatório, gastrointestinal, locomotor e psíquico; e também sobre a efetividade do tratamento. Os doentes devem ser avaliados em repouso, durante a movimentação no leito, à respiração profunda e tosse.

Para o tratamento da dor é desejável intervenções múltiplas, de forma a interferir simultaneamente na geração do estímulo, nos processos de transmissão e de interpretação, assim como no sistema modulador da dor. Mas necessitamos também de políticas institucionais e de profissionais que possuam compromisso, responsabilidade, empatia e consideração com o sofrimento do outro.
A orientação do doente e familiar é fundamental para a adesão ao tratamento. O médico é responsável pela prescrição de fármacos e o esquema medicamentoso adequado deve conter medicamentos em horário fixo e em esquema, se necessário.


O esquema horário fixo é importante para manter concentrações séricas e prover melhor analgesia, além de evitar eventuais retardos entre a dor e o atendimento pela enfermagem; por sua vez, o esquema, se necessário, é importante para permitir o rápido alívio nos casos de piora do quadro.
Após administrar o medicamento, é muito importante você reavaliar se houve alívio total
ou parcial, se a dor retorna antes do período previsto ou se o alívio se mantém até o horário das próximas medicações. Repasse estas informações ao enfermeiro, pois são de extrema valia para o ajuste das doses dos analgésicos.
Durante a realização de um procedimento diagnóstico ou terapêutico, é necessário prever um possível evento doloroso para que se possam programar medidas visando minimizar ou prevenir a ocorrência de dor.


Segundo Pimenta (1999), a palavra-chave no controle da dor é a vigilância, papel que deve ser desempenhado com primor pela equipe de enfermagem, “profissionais da vigilância”, pois são eles que mais acompanham o paciente durante o seu processo de doença.
O tratamento farmacológico da dor deve ser multimodal, ou seja, baseado na associação de vários grupos farmacológicos.
Este tratamento baseia-se na escada analgésica proposta, em 1984, pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para tratamento de pacientes com dor do câncer, mas, atualmente, após algumas revisões, é utilizada para tratamento de todos os tipos de dor.
Este guia propõe a utilização de analgésicos não opióides para dores de intensidade leve; para dor moderada, a associação de analgésicos não opióides a opióides fracos; e para as dores de forte intensidade, a manutenção dos agentes não opióides associados a opióides fortes. Em todos os degraus podem ser associados medicamentos adjuvantes e técnicas não farmacológicas para melhor controle da dor.

Analgésicos não opióides contêm um conjunto de drogas largamente utilizadas que incluem os antiinflamatórios não esteroidais (AINEs), o paracetemol e a dipirona.
Os opiáceos, opióides ou morfínicos compreendem um grupo de fármacos naturais e sintéticos com estrutura química e efeitos semelhantes aos dos alcalóides do ópio, cuja ação analgésica, euforizante e ansiolítica é conhecida há séculos.
Os analgésicos adjuvantes, não são classificados farmacologicamente como analgésicos, mas são usados isolados ou em combinação com opióides para alívio da dor. Estão incluídos neste grupo os ansiolíticos, antidepressivos, neurolépticos e anticonvulsivantes.
Tendo como base a teoria do controle do portão que vimos anteriormente, a enfermagem pode utilizar-se de diversas estratégias não farmacológicas de alívio de dor, incluindo a fricção da pele e o uso de frio e calor. As vantagens em utilizá-las é que são de baixo custo, fácil aplicação e muitas delas podem ser ensinadas aos doentes e seus cuidadores estimulando o autocuidado.


Métodos como o uso do calor e frio superficiais, as massagens de conforto e os alongamentos suaves aliviam a dor, pois ativam o sistema modulador de dor. O calor e a massagem diminuem a isquemia por melhorar a irrigação local, a aplicação de frio diminui o edema e eleva o limiar à dor e todos resultam em relaxamento muscular.
Cabe lembrar que toda vez que há dor ocorre contração muscular reflexa. A massagem de conforto, geralmente aplicada no dorso, traz sensação de relaxamento e bem-estar. Essas técnicas atuam como adjuvante ao tratamento farmacológico, mas não deve substituí-lo. Devem atender às necessidades dos pacientes e muitas vezes não eliminam a dor, mas contribuem para amenizar o sofrimento. Veja como podemos utilizar esses métodos.

O isolamento social, comumente presente nos pacientes com dor crônica, pode piorar o sofrimento e exacerbar reações emocionais como ansiedade, depressão, autocompaixão e desesperança. Podemos propor atividades sociais e orientá-lo sobre acompanhamento
psicológico. Procuramos nesse texto trazer conhecimentos atuais sobre dor.
Sabemos, porém, que para aquisição desses conhecimentos é necessário que você reflita a respeito de seus próprios conceitos e crenças sobre dor. Sabemos que diferenciar conhecimento de crença é difícil. A crença é um “entendimento” inconsciente, construído a partir de associações não verdadeiras.

Conhecimento representa uma aquisição consciente, edificada por métodos exclusivamente racionais, como a experiência e a observação. Enquanto a aquisição da menor verdade científica exige enorme labor, a posse de uma certeza baseada no “crer” não exige nenhum trabalho. A aquisição de conhecimento é condição necessária para a modificação de crença, mas não é condição suficiente.

Postado por: Sou Enfermagem | Publicado em: 04/04/2015

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