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Hipercinésia

A síndrome hipercinética é caracterizada por início precoce e por uma combinação de comportamento hiperativo e pobremente modulado com desatenção marcante.A síndrome hipercinética é caracterizada por início precoce e por uma combinação de comportamento hiperativo e pobremente modulado com desatenção marcante.

Falta de envolvimento persistente nas tarefas, conduta invasiva nas situações e persistência, no tempo, dessas características de comportamento.

Segundo Golfeto (1997a), é importante buscar explicações na Psicopatologia do Desenvolvimento, pois somente assim vamos encontrar, já em idades precoces, sintomatologia que vai explicar e justificar, em cada etapa evolutiva, probabilidades da criança ser hipercinética.

No primeiro ano de vida os bebês podem apresentar baixo peso, serem adotivos e irritáveis; ficam em estado de hiperalerta, dirigem o olhar a qualquer estímulo, dormem pouco, têm sono agitado, movimentam muito os membros superiores e inferiores, mostrando, assim, os primeiros sinais de hipercinésia, traduzidos por hiperatividade. Este será, portanto, o primeiro sintoma-alvo dessa síndrome e evidencia que a atividade motora está exacerbada. Nesta etapa evolutiva, os distúrbios da atenção e concentração não são os sintomas primários da síndrome hipercinética.

É interessante observar que Golfeto (1997a) destaca, em seus estudos, a adoção como sendo uma das prováveis causas desta síndrome e corrobora com investigadores europeus, tais como Taylor (1986), Pino e Mojarro Praxedes (1993). Destaca, ainda, a hipercinésia como sintoma inicial, ocasionando como consequência a futura síndrome hipercinética. Entre nós, Barbosa e cols. (1996) também têm chamado a atenção para a importância da nomenclatura desta síndrome, onde hipercinética é mais adequada que hiperatividade e a explicação estão evidenciadas através da Psicopatologia do Desenvolvimento.

No primeiro ano de vida, no que diz respeito à sintomatologia, o déficit da atenção, que é um dos sintomas-chave desta síndrome, é de difícil observação. Para Golfeto (1997b), são os bebês que sentem cólicas abdominais intensas, regurgitam o leite com frequência, sugam o leite com força, com características de voracidade, não gostam de colo e estão sempre insatisfeitos. Quando começam a andar podemos observar que a hiperatividade se intensifica e vamos ver que estas crianças caem mais do que andam, não permanecendo sentadas e não ficam quietas, nem nas cadeiras ou mesmo no chão. Por outro lado, já apresentam atividades perigosas, colocando-se em situação ou em locais de perigo, mostrando, assim, também, os primeiros sinais de impulsividade (Gaião e Barbosa, 1998).

Dos dois anos em diante estas crianças ficam mais agitadas, destruindo seus brinquedos, perdem o interesse pelos mesmos e, como observa Conners (1969), mudam de atividade com facilidade. Aqui já se percebem os primeiros sinais de desatenção. A fala se apresenta mais lenta, com alterações fonoarticulatórias manifestadas através de omissões e distorções fonéticas, resultando em "taquilalia estafante", segundo Golfeto (1997a). Por outro lado, algumas destas crianças podem apresentar retardo de linguagem, emitindo as primeiras palavras a partir dos três ou quatro anos de idade.

A hiperatividade, traduzida nesta época pela não coordenação motora, vai caracterizar-se por um andar desajeitado, com tombos frequentes. Outro sintoma importante nesta idade diz respeito às normas. Já nesta fase se iniciam vestígios de indisciplina e a presença das birras.

Dos quatro aos sete anos, na idade pré-escolar, a sintomatologia clássica da síndrome hipercinética já está bem desenvolvida e presente. Nesta fase, a desobediência como sinal de indisciplina é mais evidente. Podemos, assim, verificar o acerto de Still, em 1902, quando denominou pela primeira vez estas crianças como sendo portadoras de uma síndrome "defeito de conduta moral", principalmente por apresentarem sintomas ditos condutuais, oriundos da indisciplina (Gaião e Barbosa, 1998).

A síndrome hipercinética tem sua origem, sempre, nos primeiros cinco anos de vida, sendo suas principais características a falta de persistência em atividades que requeiram envolvimento cognitivo e a tendência a mudar de uma atividade para outra sem concluir nenhuma, bem como atividade excessiva, desorganizada e malcontrolada. Essas características persistem através dos anos escolares e até mesmo na vida adulta. Ávila de Encío e Polaino (1988) citam estudos de vários autores, que preconizam que estas crianças com SH apresentam, quando na idade adulta, baixo rendimento laboral, mudam com maior frequência de trabalho, sofrem acidentes de trânsito e alguns deles têm sido penalizados pela prática de atos delitosos.

Várias outras anormalidades podem estar associadas a essa síndrome, tendo em vista que crianças hipercinéticas são assiduamente imprudentes e impulsivas, propensas a acidentes e incorrem em problemas disciplinares, por infrações não premeditadas. Seu relacionamento com adultos é, com frequência, socialmente desinibido, com falta da precaução e reserva normais; são impopulares com outras crianças e podem tornar-se isoladas (Barbosa e cols., 1997). São comuns o comprometimento cognitivo e atrasos específicos do desenvolvimento motor e da linguagem, além de complicações secundárias, incluindo comportamento anti-social e baixa auto-estima, sendo comum a essa síndrome a dificuldade de leitura, associada ou não a outros problemas escolares. A atenção comprometida é manifestada por interromper tarefas prematuramente e por deixar atividades inacabadas, em decorrência da constante mudança de uma atividade para outra, parecendo perder o interesse em uma tarefa, porque as crianças se distraem com outras. No processo diagnóstico, é importante estar atento a esses déficits na atenção, devendo a mesma ser compatível com a idade e desenvolvimento da criança.

Do ponto de vista sintomatológico, estes períodos evolutivos têm uma importância vital como meios preventivos desta síndrome. Ocorre que tais sinais e sintomas deveriam ser avaliados e observados pelos pediatras, que já nesta fase evolutiva deveriam intervir preventivamente. Na maioria das vezes estes sintomas vão passar despercebidos ou, quando não, diz-se que logo desaparecerão (Barbosa e cols. 1997).

Quando a criança vai à escola pela primeira vez (seja maternal ou jardim), a professora é quem vai observar as alterações comportamentais, condutuais e de desenvolvimento, gerando, a partir desta observação, a indicação pela procura de um profissional para intervir nesta criança.

A sintomatologia descrita por Golfeto (1997b) traz grande contribuição à Psicopatologia do Desenvolvimento. Pela clareza de sua descrição, fica fácil para o profissional experiente tomar as primeiras medidas preventivas e de intervenção. É importante ter cuidado com estes sintomas, nestes primeiros anos de vida, pois como a criança está vivendo um período de desenvolvimento e de maturidade cerebral e psíquica, alguns podem não ter importância clínica em dado momento ou mesmo em caráter isolado. Barbosa e cols. (1996) chamam a atenção para estes cuidados, já que os critérios nosográficos atuais só admitem o diagnóstico da síndrome hipercinética a partir dos sete anos de idade. Questionam aqueles investigadores: existe ou não a síndrome hipercinética antes dos sete anos de idade? Sem sombra de dúvida, é uma resposta que requer, inicialmente, um profundo conhecimento da Psicopatologia do Desenvolvimento e estão certos todos os que defendem que não é possível fazer este diagnóstico nesta etapa evolutiva. É necessário esperar que a criança entre no período de operações concretas, segundo as teorias de Piaget, quando estes sintomas podem ser explicados como realmente sindrômicos.

Em 1957, Eisenberg descreve a hipercinesia como um sintoma, alteração do comportamento que se caracteriza por atividade motora exagerada e dispersão da atenção. Ela engloba as alterações específicas da aprendizagem escolar e posteriormente foi descrita como uma síndrome própria.

Porém, foi Bax (1972) quem fez a distinção entre hipercinesia e hiperatividade. A primeira estaria constituída por um exagero motor, causada por vários fatores que dificultam a criança à adaptação em seu meio sociocultural, ao tipo de disciplina recebida em casa e na escola, associadas a um estado depressivo.

Decorrente deste problema, isto é, a falta de terminologia adequada entre as duas classificações aceitas atualmente, a denominação de Transtorno do Déficit de Atenção (DSM-IV) compreende uma série de problemas em crianças, que antes eram diagnosticadas como hiperativas, hipercinéticas, lesão cerebral mínima ou disfunção cerebral mínima. O termo hiperatividade tem induzido a erros, pois tem sido utilizado como sinônimo de "Incapacidade de aprendizagem", e muitas crianças com esta síndrome estariam impossibilitadas de aprender; por outro lado, outras crianças com dificuldades de aprendizagem não são hiperativas (Hernández, 1989). 

Postado por: Sou Enfermagem | Publicado em: 14/03/2017

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