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Quando os profissionais de enfermagem enfrentam a morte

Quando os profissionais de enfermagem enfrentam a morte

Quando o assunto é morte, muitas pessoas preferem evitar o tema, pois se trata de um processo que acarreta profundas reações emocionais. 

No contexto atual, evidencia-se a falta de preparo para enfrentá-la, já que desde crianças as pessoas são afastadas da morte e de seus ritos fúnebres. Além disso, sua ocorrência vem predominando nas instituições hospitalares, tornando-a mais distante do cotidiano.

A morte é um acontecimento difícil para todos, sejam filhos, sejam pais, familiares e profissionais da área da saúde, por gerar sentimentos de dor, inconformidade, negação e saudade. Existe dificuldade em se falar sobre a morte, no entanto mais complexo é conviver em um ambiente em que esta se faz presente, como é o caso da Unidade de Tratamento Intensivo (UTI), tendo em vista a gravidade dos pacientes que lá se encontram. A UTI é considerada um setor restrito da área hospitalar, destinado à prestação de cuidados preventivos, curativos e paliativos a pacientes que se encontram em estado crítico e investíveis, dispondo de assistência contínua, profissionais especializados e equipamentos tecnológicos sofisticados.

Convém destacar que, nesse cenário, a equipe de enfermagem está sujeita a vivenciar, diariamente, episódios de morte. Assim, constata-se que os trabalhadores estão pouco instrumentalizados para lidar com essa situação, visto que, em geral, durante a formação profissional, o enfoque principal é a preservação da vida. Por outro lado, emerge a necessidade de auxiliar tais profissionais no enfrentamento desse processo, mediante a humanização do ambiente hospitalar. Todavia, a humanização ainda se encontra centralizada no paciente, disponibilizando-se escassa atenção ao cuidado e à humanização do sujeito-trabalhador, fato que precisa ser modificado, em virtude da importância de prepará-lo emocionalmente para a execução das ações cuidativas, bem como para atuar de forma ética e profissional diante do processo de morrer e de morte.

A morte, no cotidiano da enfermagem, está sempre presente, porém fica evidente a dificuldade que os profissionais têm de expressar seus sentimentos em relação ao processo de morrer, principalmente no que se refere à própria morte. Percebemos a existência do medo de morrer, do sofrimento e da dor. Isso mostra que, embora as participantes do estudo convivam diariamente com o processo de morrer e de morte na UTI, elas possuem dificuldades para enfrentá-la, preferindo, na maioria dos casos, evitar o envolvimento com o paciente e sua família, a fim de preservar sua saúde psíquica.

Outro ponto marcante está relacionado à perda de um paciente jovem. Os profissionais de enfermagem sofrem ao presenciar o processo de morrer de jovens, pois, segundo eles, são pessoas que ainda não viveram o suficiente, em virtude disso, demonstram tristeza e, muitas vezes, sentem-se impotentes.

O confronto com a morte é uma tarefa árdua para os profissionais de enfermagem que trabalham em uma UTI. Assim, destacamos a necessidade de investir em estratégias que estimulem a reflexão sobre a dimensão subjetiva do trabalhador, para que ele possa exercer suas atividades consciente da importância de seu papel como cuidador.

Quando a morte chega para um paciente com o qual o contato estabelecido foi maior, os profissionais da enfermagem tornam-se mais sensíveis e expostos ao sofrimento. Diante disso, alguns profissionais negam o envolvimento emocional, por acreditarem que uma relação mais íntima entre paciente e equipe de enfermagem propiciará o compartilhamento de sentimentos negativos, e, em consequência, o contato com o doente é reduzido, o que representa uma estratégia de defesa.

O progresso e os avanços da ciência originaram a propagação de meios técnicos. Paralelamente a isso, observa-se que o indivíduo contemporâneo é mais frágil diante do sofrer, pois o sofrimento traz a destruição das possíveis seguranças. A dor pode provocar, ainda, tensão e instigar a revisão de todo modo de viver e ver a vida, favorecendo o amadurecimento humano. Esse pensamento leva à reflexão de que é preciso que cada um conheça a si mesmo para poder aceitar e saber se relacionar com o outro, sempre respeitando-lhe a opinião. Contudo, ao vivenciar perdas de familiares ou pessoas próximas, normalmente, torna-se difícil aceitar.

Diante do exposto, os profissionais da enfermagem afirmaram que os sentimentos manifestados são completamente diferentes quando cuidam de pacientes em fase terminal ou que estejam à beira da morte do que quando cuidam de um familiar.

Modos de enfrentamento da morte utilizados pelos profissionais de enfermagem

Alguns profissionais utilizam modos defensivos a fim de evitar o sofrimento diante da morte, pois presenciar o paciente em processo de morrer e de morte na UTI é uma das situações mais penosas de enfrentar.

O não envolvimento com o paciente foi a estratégia mais citada pelos participantes do estudo. Alguns ainda acreditam que o envolvimento é essencial, entretanto, em excesso, dificulta a manutenção do equilíbrio emocional no ambiente de trabalho, podendo prejudicar a realização das ações de enfermagem:

A gente acaba se envolvendo muito [...]. Geralmente, a gente desenvolve a empatia com os pacientes [...]. Eu evito chorar, sabe, mas não que seja uma barreira; já aconteceu de chorar e tudo, mas tento evitar porque alguém tem que se manter [...]. A gente tem que criar uma certa barreira pra poder trabalhar, mas eu acho que as pessoas não devem se tornar frias [....]; devem se envolver, só que também tem que ter autocontrole. (Jasmim)

[...] e aí a gente acaba se envolvendo, né? Às vezes a gente até chora [...] Envolver o menos possível, porque se a gente vai se envolver com todos os casos, a gente não trabalha aqui na UTI. (Margarida)

Qualquer contato com uma pessoa terminal, inevitavelmente, desperta uma resposta específica. Tanto faz aceitá-la e elaborá-la ou tentar reprimi-la, ela levará à tensão, provocando fadiga, atividade exagerada, irritabilidade e outros problemas. Isso pode prejudicar a eficiência do trabalho dos profissionais de enfermagem, como também pode interferir na vida pessoal e familiar deles.

Outro aspecto é a importância que a equipe de enfermagem destina ao suporte emocional:

[A gente] tem que estar preparada emocionalmente [...]; não pode se deixar abalar, por aquilo que está presenciando [...]. É claro que a gente se emociona, mas já penso se a cada morte a gente viver chorando junto, né? Não que a gente seja fria, mas tem questões que abalam. (Jasmim)

Cada um deve estar preparado emocionalmente para trabalhar nesse ambiente. Alguns encontram força em seu interior ou nas coisas que lhe são mais valiosas e outros, na fé. A religião sempre foi um refúgio para humanidade, confortando as pessoas na iminência da morte. Ela também tem reforçado a ideia de que a vida não é finita e sem valor.

Alguns participantes procuram esse suporte emocional em meio à coletividade. Assim, procuram conversar entre si como forma de desabafar e obter apoio, bem como para amenizar as angústias e frustrações. Esse modo de enfrentamento contribui para o estabelecimento de vínculos saudáveis entre os integrantes da equipe.

Cabe destacar que essa estratégia é baseada na Teoria dos Vínculos Profissionais, que oferece suporte teórico capaz de auxiliar os profissionais de enfermagem em sua prática, a fim de possibilitar o alívio subjetivo das dificuldades, do desgaste físico e do sofrimento no trabalho, além de despertar nos profissionais a necessidade do cuidado de si, bem como a importância de prestar um cuidado de qualidade destinado a atender às demandas individuais e coletivas.

REFERÊNCIAS

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3. Amestoy SC, Schwartz E, Thofehrn MB. A humanização do trabalho para os profissionais de enfermagem. Acta Paul Enferm. 2006;19(4):444-9.
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5. Minayo MCS. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 8º. ed. São Paulo: Hucitec; 2004.
6. Rodrigues FF. Morte inesperada de um paciente da UTI: Um desafio emocional a ser superado pela equipe de saúde [monografia]. Pelotas: Faculdade de Enfermagem e Obstetrícia, Universidade Federal de Pelotas; 2003.
7. Lunardi Filho WD, Sulzbach RC, Nunes AC, Lunardi VL. Percepções e condutas dos profissionais de enfermagem frente ao processo de morrer e morte. Texto & Contexto Enferm. 2001;10(3):60-79.





Postado por: Sou Enfermagem | Publicado em: 29/08/2018

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