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Livro SAE Sistematização da Assistência de Enfermagem

Livro SAE Sistematização da Assistência de Enfermagem

Quais as facilidades e os desafios do enfermeiro na gerência hospitalar? 

A SAE pode auxiliar o enfermeiro na gerência do cuidado prestado? 

Quais os mecanismos facilitadores utilizados pelo enfermeiro para a implementação da SAE? 

Quais os desafios e as limitações que perpassam o cotidiano de trabalho do enfermeiro frente à implementação da SAE?

A Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) é conceituada como um método de prestação de cuidados para a obtenção de resultados satisfatórios na implementação da assistência, com o objetivo de reduzir as complicações durante o tratamento, de forma a facilitar a adaptação e recuperação do paciente.

O uso do método requer o pensamento crítico do profissional, que deve estar focado nos objetivos e voltado para os resultados, de forma a atender as necessidades do paciente e de sua família; exigindo constante atualização, habilidades e experiência, sendo orientado pela ética e padrões de conduta. Portanto, é um modo de exercer a profissão com autonomia baseada nos conhecimentos técnico-científicos no qual a categoria vem se desenvolvendo nas últimas décadas.

Sistematizar no sentido amplo da palavra é reduzir vários elementos a um sistema, entre os quais se possa encontrar ou definir alguma relação.

No decorrer de sua escalada científica, a enfermagem suscitou alguns autores, no intuito de embasar o saber empírico correspondente às diversas atividades realizadas no cotidiano, criando os modelos de enfermagem que moldam as teorias da profissão. Estabelecer um modelo é pensar em conceitos aplicáveis na prática e representa um conceito experimental antes de ser utilizado, o que leva à credibilidade da prática, já que estrutura de forma racional e sistematizada o desenvolvimento das atividades, conferindo segurança no fazer.

No Brasil, o modelo mais conhecido e seguido para a implantação do processo de enfermagem foi o proposto em 1979(3), o qual contém as seguintes fases:

a) Histórico de enfermagem,

 b) Diagnóstico de enfermagem,

c) Plano assistencial,

d) Prescrição de enfermagem,

e) Evolução de enfermagem

f) Prognóstico de enfermagem.

A sua aplicação na prática clínica, desde então, vem sofrendo modificações que frequentemente descaracterizam a sua utilização.

A nomenclatura tal como é conhecida e divulgada hoje (SAE) não é o único modo de ser chamada. De acordo com o contexto inserido, finalidade e área a que se destinam podem encontrar outras terminologias, como: Processo de Enfermagem, Processo de Cuidado, Metodologia do Cuidado, Processo de Assistir, Consulta de Enfermagem. A relevância está em compreender que todas assinalam a aplicação de um método científico para o planejamento das ações de enfermagem.

Com o intuito de organizar o gerenciamento do cuidado a partir de tomadas de decisões críticas e não meramente advindas de uma série de tentativas e erros, que pudessem oferecer ao paciente segurança e participação nas ações estabelecidas, foram estabelecidas etapas que num sentido geral correspondem à identificação do problema (inclui-se aqui a coleta de dados e diagnósticos) e a solução do problema (através do planejamento da resposta que se pretende alcançar, intervenção e avaliação do método em- pregado). Em termos didáticos, correspondem a: Coleta de informações (Histórico), Diagnóstico de enfermagem, Pla- nejamento, Implementação e Avaliação, que devem ser registrados formalmente no prontuário do cliente.

Os assuntos relativos a esta temática continuam a constituir, atualmente, objeto de preocupação de enfermeiros em diferentes âmbitos de atuação, sejam eles ensino, pesquisa ou assistência. Há um crescente interesse e envolvimento dos profissionais para implementar a SAE nas diversas instituições de saúde. Porém, as constantes modificações requeridas para sua execução evidenciam avanços e retrocessos, com resultados que variam de acordo com a estrutura local.

Embora o Conselho Federal de Enfermagem tenha tornado obrigatória a implementação da SAE, reforçando a importância e necessidade de se planejar a assistência de enfermagem, a Resolução COFEN nº 272/2002, art. 2º, afirma que A implementação da Sistematização da Assistência de Enfermagem – SAE deve ocorrer em toda instituição da saúde, pública e privada, o que contribuiu para que as coordenações de enfermagem convocas- sem os profissionais a repensar o processo e adequar a instituição às normas estabelecidas; ainda existem várias dificuldades para sua execução, que envolvem não apenas a deficiência de recursos, mas a forma como o profissional se apropria do conhecimento.

Mesmo com o empenho do Conselho e de toda a classe profissional, trata-se de um conhecimento que, apesar de ter sido introduzido no Brasil na década de 1970, ainda apresenta uma enorme lacuna entre a produção do conhecimento e sua aplicabilidade na prática diária do enfermeiro.

A aplicação da SAE envolve mais do que uma sequência de passos a ser seguidos, requerendo do profissional maior familiaridade dos diagnósticos de enfermagem e sensibilidade para adequar as necessidades  do  cliente às condições de trabalho, tornando-as menos simples do que sugere a teoria.

A consolidação do processo depende de vários fatores, dentre os quais destacam-se os econômicos e sociais que precedem e sustentam os determinantes profissionais. Numa era de avanço tecnológico, os profissionais são chamados a demonstrar que suas intervenções no cuidado fazem diferença nos resultados obtidos porque a pessoa que busca um serviço de saúde precisa sentir-se confiante frente às condutas adotadas para o seu tratamento.

A identificação do nível de conhecimento dos enfermeiros sobre as etapas da SAE, sua utilização no cotidiano e as dificuldades encontradas para sua implementação é de fundamental importância para propor soluções que contribuam para a sua viabilização, com o propósito de aprimorar esta metodologia de trabalho, visto que o mo- delo adotado para realizar a SAE demonstra a intenção de aumentar a qualidade da assistência prestada ao paciente internado e enriquecer a prática das enfermeiras, elevando o desempenho profissional neste processo.

O principal objetivo deste estudo foi analisar o conheci- mento dos enfermeiros sobre a SAE e sua execução no cotidiano da assistência em um hospital de grande porte, referência em emergência na cidade de Recife, Pernambuco.

A SAE, enquanto processo organizacional, é capaz de oferecer subsídios para o desenvolvimento de métodos/ metodologias interdisciplinares e humanizadas de cuida- do. As metodologias de cuidado, sejam quais forem as suas denominações, representam, atualmente, uma das mais importantes conquistas no campo assistencial da enfermagem. O profissional imbuído nesse processo necessita, entretanto, ampliar e aprofundar, continuamente, os saberes específicos de sua área de atuação, sem esquecer o enfoque interdisciplinar e/ou multidimensional.

Entretanto, para se chegar a um consenso no que diz respeito ao modo de trabalho da enfermagem, deve-se considerar as particularidades de cada serviço de saúde e tornar de comum acordo as classificações de diagnósticos, intervenções e resultados esperados, rediscutindo rotinas e validando os modelos de formulários apropriados para cada setor. É desta forma que se tem conseguido implementar a sistematização satisfatoriamente, conforme relatos de experiência.

Através da análise dos resultados obtidos no estudo, constatamos que os enfermeiros pesquisados disseram acreditar na importância da SAE que, segundo os mesmos, permite a melhoria da qualidade da assistência, promove a autonomia e unifica a linguagem. Porém, os enfermeiros apontaram várias dificuldades para sua execução relacionadas, na verdade, com as condições inadequadas de trabalho. Estes resultados são semelhantes às dificuldades constatadas em várias pesquisas sobre o tema.

Em relação se o enfermeiro deveria trabalhar com a SAE,  verificamos  que  a  grande  maioria  respondeu que concordava. Entretanto, apesar dos profissionais terem respondido afirmativamente e definido a sistematização como uma prática muito importante, 74% responderam que estavam desmotivados para executá-la. A falta de motivação entre os profissionais foi identificada, também, em outros trabalhos, estando relacionada a fatores liga- dos ao profissional e especialmente às questões políticas e institucionais que dificultam sua implementação.

Os enfermeiros desejam praticar todas as fases da SAE, planejando, investigando, diagnosticando e avaliando as intervenções(18). Entretanto, não conseguem, por encontrarem no percurso uma série de fatores que distanciam a teoria da prática, desmotivando o profissional que, apesar de reconhecer sua relevância, não a experimenta de fato. E ainda, o processo é dito como implantado, mas o que se percebe é uma forma parcial de se trabalhar, com a realização de uma ou outra etapa.

Verificamos que a metade dos entrevistados teve treinamento sobre a SAE na instituição e, mesmo assim, cerca de 70% não citou nenhum diagnóstico de enfermagem e não os utilizavam na prática profissional e 56% não executava nenhuma das etapas da sistematização. De forma semelhante, outros estudos verificaram resistência em trabalhar com o método, pouco interesse e falta de envolvimento dos profissionais e que a maioria desconhece o método.

O conhecimento é, sem dúvida, um dos valores de grande importância para o agir profissional do enfermeiro, uma vez que confere aos profissionais segurança na tomada de decisões relacionadas ao paciente, à sua equipe e às atividades administrativas da unidade. Isso se reflete na equipe de enfermagem, haja visto que esta tem o en- fermeiro como um condutor. Assim, a iniciativa para assumir condutas e atitudes está intimamente relacionada ao conhecimento que o profissional possui, pois este dá para os enfermeiros a certeza de estarem agindo da maneira mais correta e adequada.

O diagnóstico de enfermagem é considerado por alguns autores como uma das etapas mais complexas, causando muitas divergências na sua realização. O enfermeiro encontra grande dificuldade para implementá-lo na sua prática diária, além de outros profissionais de saúde a jul- garem desnecessária.

A não utilização da SAE pelos profissionais deve-se ao distanciamento entre o pensar e o fazer, entre teoria e prática, principalmente por não haver uma preocupação maior com a qualidade da assistência e sim com a demanda do serviço.

Em relação aos 23 profissionais que demonstraram conhecer todas as etapas da SAE, verificamos que a maioria era formada entre 5–10 anos e entrou na instituição há menos de cinco anos; configurando um perfil de enfermeiros recém-admitidos e com pouco tempo de conclusão de curso.

Entretanto, alguns autores, observando a formação do enfermeiro, confirmam que o aluno tem saído da graduação sem o amplo conhecimento necessário para colocar em prática o método específico de sua especialidade, que qualifica sua atividade junto aos pacientes, transmitindo-lhes confiança e segurança. Talvez seja pertinente questionar até que ponto as instituições de ensino de graduação têm discutido e implantado medidas para resolver esse problema.

A inexistência de formulários da SAE foi verificada em metade das unidades de internação. Constatamos que mesmo onde eles existiam, alguns enfermeiros negaram o manuseio dos mesmos, indicando uma assistência distanciada da fundamentação teórica.

Os formulários são importantes porque padronizam os registros e respaldam legalmente as ações de enfermagem. As anotações devem conter termos técnicos, numa sequência lógica e objetiva, para que permita a continuidade do planejamento dos cuidados prestados. Mantê-los arquivados junto ao prontuário do cliente é útil para consulta de pesquisa e ensino, fonte de dados e para processos administrativos.

A sistematização das ações traria a autonomia ao enfermeiro, porém esta idéia, quando confrontada com a realidade do sistema de saúde atual, torna-se discordante, por causa de questões como mercado de trabalho, relação com outros profissionais de saúde, estrutura e organização política da saúde e educação, bem como as relações sociais e econômicas envolvidas no processo, que também interferem na almejada autonomia.

Portanto, praticar enfermagem com uma proposta metodológica requer conhecimento, habilidade, apoio... Mas, acima de tudo, vontade e ousadia. Vontade para mudar, ousadia para mudar sem temor.

CONCLUSÃO

 O planejamento da assistência de enfermagem garante a responsabilidade junto ao cliente assistido, uma vez que este processo nos permite diagnosticar as necessidades do cliente, fazer a prescrição adequada dos cuidados e, além de ser aplicado à assistência, pode nortear tomada de decisões em diversas situações vivenciadas pelo enfermeiro enquanto gerenciador da equipe de enfermagem, promo- vendo a autonomia da profissão. Entretanto, transformar a realidade de uma assistência não planejada envolve mais do que a vontade individual dos enfermeiros. Há que se desenvolver um projeto para o alcance dessa meta, no qual são imprescindíveis a vontade política, envolvimento institucional e melhoria das condições de trabalho.

Concluímos que os enfermeiros pesquisados acreditam na importância da SAE que, segundo os mesmos, melhora a qualidade da assistência, promove autonomia e permite a unificação da linguagem. Entretanto, verificamos que a maioria dos profissionais demonstrou falta de conhecimento sobre a sistematização: 70% não citou nenhum diagnós- tico de enfermagem e não a utilizava na prática profissional e 56% não executava nenhuma das etapas. Constatamos, ainda, ausência de formulários em cerca de metade das unidades de internação. Os principais motivos alegados para a não execução da SAE estão relacionados, na verdade, com as condições inadequadas de trabalho.

ARTIGO DE:

Elisama Gomes Correia Silva

Viviane Carla de Oliveira

Giselda Bezerra Correia Neves

Tânia Maria Rocha Guimarães

 

REFERÊNCIAS

1.      Lefevre RA. Aplicação do processo de enfermagem: promoção do cuidado colaborativo. 5ª ed. Porto Alegre: Artmed; 2002.

2.      Carraro ET, Westphalen MEA. Metodologias para a assistência de enfermagem: teorizações, modelos e subsídios para a prática. Goiânia: AB; 2001.

3.      Horta WA. Processo de enfermagem. São Paul: EPU; 1979.

4.      Cunha SMB, Barros ALBL. Análise da implementação da Siste- matização da Assistência de Enfermagem, segundo o modelo conceitual de Horta. Rev Bras Enferm. 2005;58(5):568-72.

5.      Garcia TR, Nóbrega MML. Processo de enfermagem: da teoria à prática assistencial e de pesquisa. Esc Anna Nery Rev Enferm [Internet]. 2009 [citado 2011 ago. 7];13(1):816-8.

6.      Conselho Federal de Enfermagem (COFEN). Resolução n. 272/2002. Dispõe sobre a Sistematização da Assistência de Enfermagem - SAE nas Instituições de Saúde [Internet]. Brasília; 2002 [citado 2008 ago. 13].

7.      Figueiredo RM, Zem-Mascarenhas SH, Napoleão AA, Camargo AB. Caracterização da produção do conhecimento sobre Sis- tematização da Assistência de Enfermagem no Brasil. Rev Esc Enferm USP. 2006;40(2):299-303.

8.      Vieira S. Introdução à bioestatística. 3ª ed. Rio de Janeiro: El- sevier; 1980.

9.      Conselho Nacional de Saúde. Resolução n.196, de 10 de ou- tubro de 1996. Dispõe sobre diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos. Bioética. 1996;4(2 Supl):15-25.

Postado por: Sou Enfermagem | Publicado em: 02/07/2018

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