Sou Enfermagem

A espiritualidade e os cuidados paliativos na enfermagem

A espiritualidade e os cuidados paliativos na enfermagem

O cuidado paliativo remete à melhoria da qualidade de vida das pessoas e suas famílias que enfrentam condições ameaçadoras da vida, por meio do diagnóstico precoce e tratamento de sintomas físicos, psicossociais e espirituais.

Esse cuidado exige a atuação de equipe multiprofissional de saúde, com vistas a contemplar a multiplicidade dos aspectos envolvidos no processo de adoecimento, de maneira a atender à integralidade do ser humano, desde o acolhimento da demanda até o processo de luto familiar.

Nessa ótica, o profissional de saúde tem um importante papel ao auxiliar o paciente a se conhecer durante o curso de uma doença com risco de morte, buscando um sentido para sua vida. Além disso, recomenda-se que a equipe ampare e ofereça segurança de cuidado para a pessoa e seus cuidadores, dando sentido a esse momento de suas vidas, mesmo quando a cura não seja mais possível.

No enfrentamento de doenças pelo ser humano, as pesquisas frequentemente demonstram que as crenças espirituais influenciam esse processo, portanto, considera-se que seja cada vez mais necessário conhecer as demandas de cuidados espirituais dessas pessoas. Reitera-se, assim, a importância de a equipe de saúde elaborar uma anamnese espiritual daquelas com condições crônicas e documentá-la, como se faz quando se refere aos aspectos biopsicossociais. Com os dados coletados por meio do histórico, o profissional pode buscar suporte às crenças do indivíduo em cuidados paliativos, proporcionando um ambiente que possibilite rituais religiosos que sejam importantes para a pessoa, e também desenvolver uma postura acolhedora com a comunidade de fé do paciente. 

Essas são vias pelas quais os profissionais podem integrar a espiritualidade no cuidado em saúde. É importante no cuidado em saúde diferenciar o conceito de espiritualidade do de religiosidade. Religião é definida enquanto um sistema de crenças e práticas de uma determinada comunidade, amparada por rituais e valores. 

Já a espiritualidade pode ou não estar relacionada à religião, compreendida como a busca de sentido para a vida, em dimensões que transcendem o palpável da experiência humana, sendo este conceito o adotado para o presente estudo.

A espiritualidade se mostra significativa na área dos cuidados paliativos, reduzindo o sofrimento, independentemente do estágio da doença. Também a espiritualidade influencia na maneira que os pacientes enfrentam os problemas de saúde, proporcionando bem-estar, não apenas diante da morte.

Nessa direção, além da relevância da construção de um histórico espiritual, ressalta-se que, a partir da compreensão do sentido desta dimensão do ser humano, é possível desenvolver melhores práticas de cuidado às pessoas em cuidados paliativos, em cuja condição de terminalidade os aspectos espirituais tendem a se acentuar. Ao se pensar na integralidade do ser e no cuidado espiritual na finitude da vida, é necessário considerar a pessoa que está doente, e não a doença em si, visando o bem-estar, a qualidade de vida e o conforto. Desse modo, entende-se a integralidade do cuidado como o conjunto de ações articuladas estratégica e conjuntamente por todos os membros da equipe de saúde, com o objetivo de garantir um modelo de cuidado humanizado e holístico que contemple o bem-estar das múltiplas dimensões do ser humano, considerando-o enquanto ser biopsicossocial e espiritual.

Não obstante, pondera-se que, assim como a dor física, social e emocional, também pode ocorrer a dor espiritual, a qual se refere à falta de sentido na vida e na morte, ao medo do pós-morte, às culpas perante Deus e à busca de fé e de conforto espiritual. Partindo disso, nesta pesquisa, à luz do referencial teórico de Viktor Frankl, que se inspira em princípios do existencialismo e da fenomenologia, compreende-se que o ser humano se sente instigado a buscar um sentido para sua vida, e essa vontade é justamente a principal força motivadora. A vida tem sentido como um todo, então, o sofrimento inevitável tem igualmente seu sentido e faz parte da vida. Por isso, em situações como as dos estados de doença terminal, restam poucas possibilidades ao indivíduo, como a de se posicionar com dignidade perante a vida. E, no momento em que a pessoa se pergunta sobre o sentido da vida, expressa o que há de mais humano em si.

Desse modo, exercer a espiritualidade diante de situações que promulguem a finitude do ser humano torna-se essencial para o seguimento da vida das pessoas em cuidados paliativos, sendo esse exercício considerado a força motriz para responder aos ensejos dessas pessoas em relação a sua própria existência. O exercício da espiritualidade é apontado também como agente transformador e regulador das emoções, constituindo-se em uma ferramenta efetiva na redução dos níveis de depressão e ansiedade nas pessoas que vivem com câncer.

Quando se trata de cuidados paliativos às pessoas com câncer, a espiritualidade também é reconhecida como promotora da qualidade de vida, e a fé é o componente mais importante que a traduz. A fé tem sido referenciada como um fator contribuinte para a melhoria dos sintomas físicos e psicológicos do paciente, o que lhe proporciona uma melhor qualidade de vida, e, nos cuidados paliativos, afirma-se ainda mais a existência do ser humano na sua pluralidade, transcendendo o cuidado apenas do corpo biológico.

Em se tratando da espiritualidade dos profissionais que trabalham com cuidados paliativos, sabe-se que esta é muito importante e coopera para a realização cotidiana de seu trabalho, além de contribuir para a qualidade do cuidado prestado.

O exercício da espiritualidade, ao tornar os profissionais mais sensíveis às necessidades dos pacientes, viabiliza um modelo de cuidado mais abrangente e humanizado. 

Além disso, quando existe um amplo espectro de espiritualidade e apoio espiritual percebido na equipe de saúde, as necessidades espirituais das famílias dos pacientes, fragilizadas diante da finitude da vida, também são contempladas.

No entanto, a literatura é escassa no que diz respeito a esse assunto, a maioria das pesquisas envolvendo a espiritualidade nos cuidados paliativos aborda os pacientes como o objeto dos estudos. Diante disso, pensar e colocar em prática a espiritualidade no trabalho em saúde requer embasamento em conhecimentos científicos, que são alicerces para o cuidado do ser humano em todo o ciclo vital.

A espiritualidade dá sentido ao trabalho dos profissionais de cuidados paliativos, partindo do seu fortalecimento como pessoa, o que se reflete na atuação profissional. Também foi atribuído à espiritualidade o verdadeiro sentido dos cuidados paliativos, trazendo tranquilidade e entendimento do objetivo desta atenção em saúde, e levando à ressignificação de ações dos profissionais.

O cuidado do paciente em processo de morte precisa ser valorizado tanto quanto o cuidado na recuperação de um paciente que teve uma parada cardíaca, considerando-se a morte como parte da vida. A prestação de cuidados dignos, atendendo a todas as necessidades de saúde apresentadas pelo paciente e sua família, é uma forma de os profissionais que atuam em cuidados paliativos desenvolverem um processo de trabalho voltado à boa morte, isto é, com o mínimo de sofrimento e sem dor ao paciente e à família.

Nesse cenário de cuidados paliativos, o profissional vivencia um ambiente permeado por dores, angústias e questionamentos. Entende-se que a essa equipe, formada
por profissionais das mais diversas especialidades, competem habilidades além da técnica, pois se faz necessária a ajuda mútua, um potencializando o outro, e todos em prol dos pacientes e seus familiares.

A experiência na atenção às pessoas em terminalidade exige dos profissionais uma reflexão acerca de suas atitudes e entendimentos, e, assim, esses ressignificam suas práticas.
Com isso, passam a compreender a morte como um evento natural da vida, e a relevância da multiprofissionalidade para proporcionar uma vida com mais qualidade e conforto ao paciente e familiares. Para tal, faz-se necessária a construção de vínculos entre os profissionais e as pessoas em cuidados paliativos, de modo que partilhem situações estressoras, o que ocasiona sofrimento aos trabalhadores, mas, no entanto, resulta na satisfação e realização profissional, quando esses promovem um cuidado humanizado, que é o cerne da atenção paliativa.

Em cuidados paliativos, reorienta-se o modelo habitual de cuidados em saúde, pois se reconhece que as necessidades, os desejos e as perspectivas do paciente que vivencia uma doença em fase terminal passam a ser outras e, por isso, os cuidados a ele prestado têm de estar coerentes com suas necessidades. Nisso tudo, a espiritualidade é uma das vertentes que rege esse tipo de cuidado diferenciado, sendo considerada relevante nas ações paliativistas por ser capaz, entre outras coisas, de promover maior reflexão e aceitação da morte – muitas vezes, o maior paradigma a ser enfrentado pelas pessoas que vivenciam o câncer e a finitude da vida, e que, muitas vezes, dá sentido ao trabalho da equipe de cuidados paliativos.

Além disso, o trabalhador atuante em cuidados paliativos se depara com a própria terminalidade ao lidar com a finitude do paciente, de modo que a espiritualidade pode proporcionar sentido ao trabalho em cuidados paliativos, como foi mencionado pelos participantes, que uma relação empática poderá sinergicamente promover o encontro do profissional.

A espiritualidade exercida pelos profissionais de saúde no cuidado aos pacientes apresentou-se como resposta benéfica no enfrentamento do câncer, para lidar com o entrechoque da vida e morte e também como facilitadora na formação de vínculos com as pessoas em cuidados paliativos e sua família.
Desse modo, por meio dos achados do estudo, foi possível constatar que ações relacionadas à espiritualidade, como o ato de orar e a prática de cuidados integrais, dão sentido ao trabalho dos profissionais que atuam em cuidados paliativos, por lidarem com a terminalidade do outro e objetivarem a humanização do morrer, ou seja, a boa morte.

Além disso, os profissionais sinalizaram que os pacientes espelham a própria mortalidade do trabalhador, e, se este tiver abertura para a escuta e partilhar angústias, poderá
entender o processo pelo qual o paciente está passando e facilitar a busca de sentido para o sofrimento advindo da enfermidade. Porém, o profissional que não consegue lidar com suas próprias questões de morte terá mais dificuldade em lidar com a morte do outro e procurará, de alguma forma afastá-la de si, manifestando isso na fragmentação do paciente em órgãos ou referindo-se a ele por meio da sua doença ou de seus sintomas físicos.

Os pacientes demonstram necessidades de serem entendidos na sua totalidade como pessoas, e não simplesmente como exemplos isolados de doenças, e, nessa totalidade, está incluída a dimensãoespiritual, que se entende ser a única dimensão que não será afetada pela morte.

Por fim, há que se destacar que, muitas vezes, não há a busca da espiritualidade pelos profissionais de saúde durante toda a vida, entendendo-se que essa se trata de uma construção pessoal. Quando os trabalhadores passam a atender à dimensão espiritual de uma pessoa que se encontra em cuidados paliativos, isso representa uma compreensão mais profunda de suas crenças e valores, permitindo ao profissional atender melhor às demandas de saúde dos pacientes e este em sua integralidade.





Postado por: Sou Enfermagem | Publicado em: 17/09/2018

Este site usa cookies para fornecer serviços e analisar tráfego. Ao usar o site, você concorda com o uso de cookies. Saiba mais. Entendi