Sou Enfermagem

Atenção Obstétrica e Neonatal

Atenção Obstétrica e Neonatal

A atenção obstétrica e neonatal, prestada pelos serviços de saúde, deve ter como características essenciais a qualidade e a humanização.

É dever dos serviços e profissionais de saúde acolher com dignidade a mulher e o recém-nascido, enfocando os como sujeitos de direitos.

A humanização diz respeito à adoção de valores de autonomia e protagonismo dos sujeitos, de co-responsabilidade entre eles, de solidariedade dos vínculos estabelecidos, de direitos dos usuários e de participação coletiva no processo de gestão. A atenção com qualidade e humanizada depende da provisão dos recursos necessários, da organização de rotinas com procedimentos comprovadamente benéficos, evitando-se intervenções desnecessárias, e do estabelecimento de relações baseadas em princípios éticos, garantindo-se privacidade e autonomia e compartilhando-se com a mulher e sua família as decisões sobre as condutas a serem adotadas.

Estados e municípios necessitam dispor de uma rede de serviços organizada para a atenção obstétrica e neonatal, com mecanismos estabelecidos de referência e contrareferência, considerando os seguintes critérios:

• Vinculação de unidades que prestam atenção pré-natal às maternidades/hospitais, conforme definição do gestor local;

• Garantia dos recursos humanos, físicos, materiais e técnicos necessários à atenção pré-natal, assistência ao parto e ao recém-nascido e atenção puerperal, com estabelecimento de critérios mínimos para o funcionamento das maternidades e unidades de saúde;

• Captação precoce de gestantes na comunidade;

• Garantia de atendimento a todas as gestantes que procurem os serviços de saúde;

• Garantia da realização dos exames complementares necessários;

• Garantia de atendimento a todas as parturientes e recém-nascidos que procurem os serviços de saúde e garantia de internamento, sempre que necessário;

• Vinculação à Central de Regulação Obstétrica e Neonatal, de modo a garantir a internação da parturiente e do recém-nascido nos casos de demanda excedente;

• Transferência da gestante e/ou do neonato em transporte adequado, mediante vaga assegurada em outra unidade, quando necessário (SAMU); • Garantia de atendimento das intercorrências obstétricas e neonatais;

• Atenção à mulher no puerpério e ao recém-nascido.

 

A ATENÇÃO PRÉ-NATAL E PUERPERAL

O principal objetivo da atenção pré-natal e puerperal é acolher a mulher desde o início da gravidez, assegurando, ao fim da gestação, o nascimento de uma criança saudável e a garantia do bem-estar materno e neonatal. Uma atenção pré-natal e puerperal qualificada e humanizada se dá por meio da incorporação de condutas acolhedoras e sem intervenções desnecessárias; do fácil acesso a serviços de saúde de qualidade, com ações que integrem todos os níveis da atenção: promoção, prevenção e assistência à saúde da gestante e do recém-nascido, desde o atendimento ambulatorial básico ao atendimento hospitalar para alto risco. Estados e municípios, por meio das unidades integrantes de seu sistema de saúde, devem garantir atenção pré-natal e puerperal realizada em conformidade com os parâmetros estabelecidos a seguir:

1. Captação precoce das gestantes com realização da primeira consulta de pré-natal até 120 dias da gestação;

2. Realização de, no mínimo, seis consultas de pré-natal, sendo, preferencialmente, uma no primeiro trimestre, duas no segundo trimestre e três no terceiro trimestre da gestação;

3. Desenvolvimento das seguintes atividades ou procedimentos durante a atenção pré-natal:

3.1 Escuta da mulher e de seus(suas) acompanhantes, esclarecendo dúvidas e informando sobre o que vai ser feito durante a consulta e as condutas a serem adotadas;

3.2 Atividades educativas a serem realizadas em grupo ou individualmente, com linguagem clara e compreensível, proporcionando respostas às indagações da mulher ou da família e as informações necessárias;

3.3 Anamnese e exame clínico-obstétrico da gestante;

3.4 Exames laboratoriais:

• ABO-Rh, Hemoglobina/Hematócrito, na primeira consulta;

• Glicemia de jejum, um exame na primeira consulta e outro próximo à 30ª semana de gestação;

• VDRL, um exame na primeira consulta e outro próximo à 30ª semana de gestação;

• Urina tipo 1, um exame na primeira consulta e outro próximo à 30ª semana de gestação;

• Testagem anti-HIV, com um exame na primeira consulta;

• Sorologia para hepatite B (HBsAg), com um exame, de preferência, próximo à 30ª semana de gestação;

• Sorologia para toxoplasmose (IgM), na primeira consulta (se disponível).

3.5 Imunização antitetânica: aplicação de vacina dupla tipo adulto até a dose imunizante (segunda) do esquema recomendado ou dose de reforço em mulheres já imunizadas;

3.6 Avaliação do estado nutricional da gestante e monitoramento por meio do SISVAN;

3.7 Prevenção e tratamento dos distúrbios nutricionais;

3.8 Prevenção ou diagnóstico precoce do câncer de colo uterino e de mama;

3.9 Tratamento das intercorrências da gestação;

3.10 Classificação de risco gestacional a ser realizada na primeira consulta e nas subseqüentes;

3.11 Atendimento às gestantes classificadas como de risco, garantindo vínculo e acesso à unidade de referência para atendimento ambulatorial e/ou hospitalar especializado;

3.12 Registro em prontuário e cartão da gestante, inclusive registro de intercorrências/urgências que requeiram avaliação hospitalar em situações que não necessitem de internação.

4. Atenção à mulher e ao recém-nascido na primeira semana após o parto, com realização das ações da “Primeira Semana de Saúde Integral” e realização da consulta puerperal (entre a 30ª e 42ª semanas pós-parto).

MONITORAMENTO DA ATENÇÃO AO PRÉ-NATAL E AO PUERPÉRIO

Para que seja possível o monitoramento da atenção pré-natal e puerperal, de forma organizada e estruturada, foi disponibilizado pelo DATASUS um sistema informatizado, SISPRENATAL, de uso obrigatório nas unidades de saúde e que possibilita a avaliação da atenção a partir do acompanhamento de cada gestante.

A avaliação da atenção ao pré-natal e ao puerpério prevê a utilização de indicadores de processo, de resultado e de impacto. Para o profissional de saúde, provedor da assistência pré-natal propriamente dita, os indicadores de processo deverão ser monitorados continuamente para a avaliação da atenção prestada. O SISPRENATAL disponibilizará todos os indicadores de processo, por localidade e período.

INDICADORES DE PROCESSO

• Percentual de gestantes que se inscreveram no programa e realizaram a primeira consulta até o quarto mês, em relação à população-alvo (número de gestantes existente ou estimado pelo número de nascidos vivos do município);

• Percentual de getantes inscritas que realizam, no mínimo, seis consultas de pré-natal;

• Percentual de gestantes inscritas que realizaram, no mínimo, seis consultas de pré-natal e a consulta de puerpério;

• Percentual de gestantes inscritas que realizaram, no mínimo, seis consultas de pré-natal e todos os exames básicos;

• Percentual de gestantes inscritas que realizaram, no mínimo, seis consultas de pré-natal, a consulta de puerpério e todos os exames básicos;

• Percentual de gestantes inscritas que receberam imunização antitetânica (no mínimo duas doses durante o pré-natal ou dose de reforço em mulheres já imunizadas, ou nenhuma dose nas mulheres com imunização completa);

• Percentual de gestantes inscritas que realizaram, no mínimo, seis consultas de pré-natal, a consulta de puerpério e todos os exames básicos, o teste anti-HIV e a imunização antitetânica.

Outros indicadores devem ser acompanhados para análise mais ampla do conjunto da atenção obstétrica:

INDICADORES DE RESULTADO

• Percentual de recém-nascidos com diagnóstico de sífilis congênita em relação ao total de recém-nascidos vivos do município;

• Percentual de recém-nascidos com tétano neonatal, em relação ao total de recém-nascidos vivos do município.

INDICADORES DE IMPACTO

• Coeficiente de incidência de sífilis congênita no município, comparado com o do ano anterior;

• Coeficiente de incidência de tétano neonatal no município, comparado com o do ano anterior;

• Razão de mortalidade materna no município, comparada com a do ano anterior;

• Coeficiente de mortalidade neonatal precoce no município, comparado com o do ano anterior;

• Coeficiente de mortalidade neonatal tardia no município, comparado com o do ano anterior;

• Coeficiente de mortalidade neonatal total no município, comparado com o do ano anterior.

A interpretação dos indicadores de processo do Programa de Humanização no Prénatal e Nascimento (PHPN) é importante instrumento para organização da assistência.

RECOMENDAÇÕES DA ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE (OMS)

Recentemente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou recomendações essenciais para a atenção pré-natal, perinatal e puerperal. Tais recomendações basearam-se em revisão sistemática de estudos controlados e da aplicação dos conceitos da Medicina Baseada em Evidências. Os dez princípios fundamentais da atenção perinatal, assinalados pela OMS, indicam que o cuidado na gestação e no parto normais deve:

1. Não ser medicalizado, o que significa que o cuidado fundamental deve ser previsto, utilizando conjunto mínimo de intervenções que sejam realmente necessárias;

2. Ser baseado no uso de tecnologia apropriada, o que se define como conjunto de ações que inclui métodos, procedimentos, tecnologia, equipamento e outras ferramentas, todas aplicadas para resolver um problema específico. Este princípio é direcionado a reduzir o uso excessivo de tecnologia, ou a aplicação de tecnologia sofisticada, ou complexa, quando procedimentos mais simples podem ser suficientes, ou ainda ser superiores;

3. Ser baseado em evidências, o que significa ser embasado pela melhor evidência científica disponível, e por estudos controlados aleatorizados, quando seja possível, e apropriado;

4. Ser regionalizado e baseado em sistema eficiente de referência de centros de cuidado primário para centros de cuidado secundário e terciário;

5. Ser multidisciplinar, com a participação de profissionais da saúde como parteiras tradicionais, obstetras, neonatologistas, enfermeiros, educadores para parto e maternidade e cientistas sociais;

6. Ser integral e levar em conta necessidades intelectuais, emocionais, sociais e culturais das mulheres, seus filhos e famílias, e não somente um cuidado biológico;

7. Estar centrado nas famílias e ser dirigido para as necessidades não só da mulher e seu filho, mas do casal;

8. Ser apropriado, tendo em conta as diferentes pautas culturais para permitir lograr seus objetivos;

9. Levar em conta a tomada de decisão das mulheres;

10. Respeitar a privacidade, a dignidade e a confidencialidade das mulheres. Estes princípios asseguram fortemente a proteção, a promoção e o suporte necessário para se atingir um cuidado perinatal efetivo. Eles estão sendo incorporados nos materiais técnicos, bem como nas ferramentas de monitorização e avaliação da OMS.


Postado por: Sou Enfermagem | Publicado em: 14/03/2017

Gostou? Deixe seu comentário.

Relacionados

VOCÊ TAMBÉM PODE FAZER UMA PESQUISA